Cinco minutos para as dez

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OST da crônica – Arcade Fire: Cold Wind

O último ano do ensino médio significou uma coisa para mim: Ano que vem você vai ter que procurar um emprego. Simples. Acontece com a maioria dos jovens. Arranje um emprego por mais sem sentido que ele seja. Você precisa “ter as suas coisas”.

No ano seguinte, em 2014, acabava de receber uma ligação para minha segunda entrevista — veja como 2014 é um ano longínquo; as pessoas ainda tinham entrevistas para ir. Era do ESPRO, uma espécie de ONG que profissionalizava jovens através de parcerias com várias empresas.

O ESPRO funcionava como uma “terceirizadora” de jovens aprendizes. A psicóloga iria selecionar algumas pessoas para irem para a empresa conversar com os responsáveis da área onde ficaríamos alocados.

Só mais tarde eu descobriria em que momento eu consegui passar para a próxima fase, pois antes tinha certeza que fiz merda durante o processo. Foi durante a famigerada dinâmica em grupo.

Tínhamos que convencer as pessoas comprarem nosso produto. Clichêzaço, claro. Mas o problema que o produto era muito abstrato. No nosso caso, tivemos que vender Preguiça.

Me lembro que fomos divididos em grupos de quatro pessoas. No meu grupo estava o Airton, um cara com a minha idade, mas tinha tamanho e fisionomia de um homem de 30 anos. Spoiler: Eu e o Airton conseguimos a vaga. Trabalhávamos no mesmo horário, mas em setor diferente, então saíamos juntos grande parte dos dias — o maravilhoso horário das 8h00 às 14h00. Certo dia finalmente recebemos nossos crachás. Minha foto estava horrível, tipo feia mesmo. Comentei com o Airton: “Porra, fique com a maior cara de buceta”. Ele riu da saída da empresa até o metrô São Bento. No dia seguinte ainda estava rindo quando nos encontramos às 14 horas.

Voltando à cena da dinâmica em grupo. A psicóloga pediu para que criássemos um jingle para apresentar. Um dos caras do meu grupo queria fazer algo como a música da introdução de Two And A Half Men. Não conseguiu — detalhe: esse cara falou por quase meia hora quando fomos obrigados a falar da nossa biografia. Uma das coisas que ele disse que faria com o primeiro salário seria comprar camisetas brancas sem estampas. Vai saber…

Chegou nossa vez. Tudo foi bem, acho, falamos os benefícios da Preguiça e tentamos vendê-la. Silêncio. A psicóloga nos pergunta: “E o jingle?”. Silêncio.

Não pensei muito, parecia óbvio. Enquanto os caras do grupo balançavam a cabeça expondo nosso fracasso eu disse: “Não fizemos porque estávamos sob efeito de Preguiça”. Todos riram. Acho.

A empresa que buscava os aprendizes, três no total, era a Associação dos Advogados de São Paulo, a AASP. Dias depois fui conversar com o Diego, coordenador do setor de atendimento ao associado, e a Ivete, a gerente da área.

Diego é um dos caras mais legais que tive o prazer de trabalhar nas três experiências que tive até agora. Ele tinha uns dois metros de altura, um jeitão despreocupado, tipo surfista, e era um pouco debochado. Um dia ele nos levou a uma sala para nos dar uma bronca porque nos esquecemos de olhar a pasta de fax. Sim, 2014 é um ano longínquo. Ele não conseguiu passar a imagem de coordenador raivoso e riu enquanto nos fazia perguntas. Acabamos conversando sobre nossas vidas. Me lembro de ter dito que não gostava do que fazia.

Um ano antes disso, na entrevista, notei que ele estava tão nervoso quanto eu enquanto esperávamos a Ivete chegar à sala. Agora que estou escrevendo, me lembrei que foram três entrevistas na AASP. Uma com a psicóloga deles, outra com a gerente de um setor que não me lembro qual era e outra com o Diego. As duas últimas foram no mesmo dia.

Fui bem na entrevista. Pelo menos tive meu momento. Fiz a Ivete e o Diego rirem, da mesma forma que fiz a psicóloga do ESPRO rir.

No caso, alguém me perguntou qual a profissão dos meus pais. Eu disse que minha mãe era doméstica e meu pai padeiro. A reação padrão para minha resposta é: “Hum, então tem pão quentinho todo dia lá na sua casa, né?”. Minha resposta sempre é: “Não. Meu pai nunca leva pão para casa”.

O porquê disso é que fazem as pessoas rirem — ou fez a Ivete e o Diego rir. Meu pai certa vez fez pão aqui em casa. Preparou a massa e tudo o mais e colocou no forno. Minha mãe chegou em casa e deu de cara com o forno ligado. Ela abriu a tampa do fogão, estranhou o bolo de massa lá dentro e colocou dois dedos, afundando o que deveria ser um pão. A massa não cresceu mais. Meu pai ficou puto, comeu o pão sozinho e nunca mais inventou uma história dessas novamente.

Talvez nem seja tão engraçado. Talvez seja o jeito que eu contei. As pessoas costumam falar isso.

Tempos depois, por exemplo, eu já sendo um aprendiz, fui na “atividade de aprendizado”. É uma espécie de aula que todo aprendiz tem uma vez por semana. Eu ia ao ESPRO e me reunia com outros aprendizes de diferentes empresas e aprendíamos sobre questões básicas de administração e como se comportar nas empresas.

Seria um saco se eu não tivesse conhecido Bruna e Felipe Lijas — cujo eu chamava de “Lirrás”, com sotaque latino.

Lijas trabalhava na mesma empresa em que seu pai trabalhava, ou coisa do tipo. Certa vez ele teve que fazer uma queima de arquivo. Eu e a Bruna passamos a dizer que ele com certeza matou alguém, por isso dessa “queima de arquivo”.

Bruna era técnica em gastronomia e posteriormente começou a cursar gastronomia na faculdade. É uma das pessoas mais legais que conheci. Nos falamos por mais um ano depois que saímos do ESPRO, depois nunca mais nos vimos.

Bruna usava o termo “domingo da depressão” para falar dos domingos e combinamos de sair para tomar tequila. Isso nunca aconteceu.

Além deles havia a Luana. Ela era rápida, tinha as melhores respostas. Certa vez, conversando, ela disse que queria comprar um piano velho para colocar em seu chalé — não que ela tivesse um. “Um chalé com chaminé”, eu disse, “no meio do nada”.

Me apaixonei por Luana nesse dia. Nunca disse isso a ela, claro. Quando tentei uma aproximação mais “incisiva”, ela se assustou, contando para a Bruna que eu estava agindo estranho.

Disso só soube quase um ano depois, quando, conversando com a Bruna, contei para ela que tinha uma “paixonite” pela Luana. Ela disse que já sabia e me contou esse caso. Bruna tinha uma paixonite pelo Leandro. Leandro chegou meses depois. Ele carregava uma bíblia e questionava o fato de eu ser católico. Ao conversar com ele sabia que uma hora ele chegaria ao assunto religião e sacaria sua bíblia da mochila. Isso acontecia muito rápido e eu nunca sabia como reagir.

Antes de tudo isso, numa dessas atividades de aprendizado, Bruna, Lijas e eu conversávamos sobre coisas absurdas que vimos na TV. Eu me lembrei de dois casos que vi no programa do João Kleber, aquele que passava pela manhã, anos atrás, na RedeTV.

No caso, um homem vestia uma peruca e estava prestes a revelar um grande segredo para a esposa. Horas se passou e o segredo foi revelado. O homem tirou a peruca e disse: “Meu bem, eu sou careca”. A esposa ficou indignada, tipo putaça mesmo. O mundo inteiro sabia que ele usava peruca, isso era óbvio, menos a mulher que por anos foi casado com ele.

O outro caso era sobre uma mãe e uma filha. Outro segredo para ser revelado. A filha começou: vendeu a casa, ficou com o dinheiro e que a mãe morasse na rua. Reviravolta inesperada. A mãe furiosa revela: você é adotada, sua mãe verdadeira é a sua tia, que não te quis. Bastarda imunda, fique com a casa e sem amor.

Eu contei isso para os dois nesse dia. Os dois literalmente choravam de ri. Me lembro da expressão deles. Os olhos fechados, as cabeças viradas para o teto, as lágrimas caindo. A Bruna batia os pés no chão. Eu ri porque eles riram. Por algum motivo me lembro bem desse dia. Ah. A Luana também estava lá, ouvindo tudo, rindo timidamente.

Conto tudo isso por um motivo simples. A AASP ficava próximo do metrô São Bento, a única região de São Paulo que eu gosto. Para quem não conhece, lá tem o Mosteiro de São Bento, uma igreja incrível com arquitetura gótica/medieval. Quando não há órgãos tocando, é um silêncio cheio de paz. A barulheira das ruas cessa quando você entra pelas portas.

Eu sempre ia lá antes de atravessar a Rua São Bento e chegar à Alvares Penteado, endereço da AASP.

Até hoje, na frente do mosteiro, há pessoas em situação de rua pedindo dinheiro para quem entra ou sai da igreja.

Quando eu era aprendiz, havia uma moça com cabelos curtos e embaraçados, olhos muito azuis e, claro, sujíssima. Sua fisionomia se resumia a uma expressão de revolta. Justificada. Ela apenas erguia as mãos para quem aproximava-se. Vez ou outra eu dava algumas moedas para ela. Isso não ajudou muito.

Um ano depois eu “fugi” da AASP. Não avisei ao RH da empresa que iria sair, pois pensei que bastava me desligar no ESPRO. Me despedi de todo mundo, fui para casa. Ainda no ônibus, a psicóloga que me entrevistou me liga. Falou um monte, revoltada. No dia seguinte voltei lá, ouvi mais e fui dispensado.

Quase três anos depois consegui um estágio na mesma região, no edifício Martinelli. Ainda hoje eu vou ao mosteiro sempre que chego cedo ou passo lá após sair do trabalho.

Nos primeiros dias eu me perguntava: “Onde está aquela moça que ficava na frente da igreja pedindo dinheiro?”.

Semanas depois eu a encontrei, vagando próxima de uma das entradas do metrô, um lençol nos ombros. O que ela fez com as moedas que eu dei para ela, anos antes, ora!

Ontem, uma sexta-feira, déjà vu. Saio do mosteiro e lá está ela, no exato canto onde costumava ficar.

Passei por ela. Não sei se após ver o relógio no meu pulso ela quis saber das horas ou se antes disso essa informação parecia importante. “Ô, moço! Que horas são?”. Parei e respondi: “Cinco para as dez”.

“Dez horas?!”. “Não, cinco para as dez!”. “Cinco para as dez? Já!”.

Ficou indignada. “Já!?”. E sorriu, jogando as mãos para o alto. Fiz um sinal de joinha e sorri, indo embora.

Talvez esteja sendo arrogante, insensível. Não sei da vida dela, apenas que há três anos ela não tem onde morar. Três anos quando entrou na minha rotina, claro. Trata-se, provavelmente, de uma pessoa que nasceu nas ruas ou viveu mais da metade dela por aí.

Mas segui meu caminho sorrindo. Me perguntando, por que da indignação, por que da surpresa pelas horas estarem avançando…

Senti um fluxo de pensamentos. O fato de “conhece-la” há três anos desencadeou essas lembranças do meu tempo de aprendiz, que me levou a relembrar coisas como fazer outras pessoas rirem em momentos específicos. Tão jovem, tão nostálgico, ainda que não sinta falta “daquele” tempo. É como se não tivesse ocorrido uma ruptura total da vida não tão diferente que levo hoje em dia.

Talvez nada tenha mudado mesmo. Meus medos continuam os mesmos.

Já fui abordado por muitas pessoas em situação de rua pelo centro. Percebi que com o tempo naturalizei a presença deles. O que é horrível. Não é natural. Odeio São Paulo por isso e todas as coisas.

A correria se mistura com histórias apagadas, que não nos importamos ou que temos uma resposta simplista para explicá-las.

E que horas são mesmo? Para onde vão todas essas pessoas no metrô e essa porção de gente nas ruas, pela Sé? O que elas fazem?

Há algo de curioso na ideia de fazer uma pessoa ri ou simplesmente sorri.

Algo muito forte, eu diria.

Não sei a relação entre meus primeiros passos na minha “carreira profissional”, com aquela moça no mosteiro. Provavelmente, nenhuma. Talvez não haja história sobre isso. Talvez só tenha sentido falta de escrever aqui.

Seja o que for: feliz 2018.

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