Escrevendo para te alcançar

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Sim, não foi eu que desenhei.

Em 2016 eu comecei a correr. Tive pequenas e frustrantes experiências antes de “começar de verdade”. Quando comecei a querer correr, lá em 2015, eu tinha uma tremenda vergonha de andar por aí com um short acima do joelho.

E como é comum que o mundo inteiro olhe para mim quando estou em público, criei a paranoia de que enquanto eu corresse as pessoas iriam apontar e rir dos meus joelhos. Ah, tinha o fato de eu achar que corria igual a Phoebe.

Mas como meu espirito maratonista queria muito sair por aí e circular pelas ruas fedendo a suor, tive uma brilhante ideia: iria correr antes de ir trabalhar!

Independente do que eu iria fazer pela manhã, às 7:15 eu deveria estar dentro do ônibus. Então, descubro que o único horário que caberia na minha agenda seria acordando às 05:30 da manhã. Nice!

Qual era o problema andar por aí fazendo atividade física quando até mesmo o sol está dormindo? Qual o problema se aventurar por um bairro onde é totalmente contraindicado andar pelas ruas antes do fim do toque de recolher? — 8 da manhã a título de curiosidade.

Não sei o que deu em minha naquela época. Talvez fosse o meu péssimo emprego, talvez fosse a péssima escolha que fiz para cursar na faculdade, mas eis que eu comecei a correr nesse horário mesmo por aproximadamente quatro meses.

Em dezembro de 2016 eu corria meus primeiros 10km em uma prova e tinha a vaga sensação de que fiz a coisa certa, mesmo que algumas experiências me contradiga.

Foram duas as vezes que percebi que correr ao melhor estilo Mike Tyson não fazia sentido […’Às 4 todos meus adversários estão dormindo e engordando. Se eu souber que algum deles está correndo as 04h também, vou começar a correr às 02h, e se algum correr as 02h, vou parar de dormir para treinar’].

(Primeiro porque eu não sou Mike Tyson, segundo eu não sou Mike Tyson e terceiro: se eu fosse um minuto mais rápido ou mais lento, coisas estranhas teriam acontecido comigo).

Em uma ocasião eu descia uma rua e ouço, vindo lá de baixo, o barulho de uma moto em alta velocidade. Gritos. Moto acelerando e indo embora.

Sem nem prestar atenção, eu continuo descendo a rua e um cara cruza a rua paralela a que eu estava. Uma moça vem ao encontro dele e enquanto passo, na maior despreocupação, eu ouço o ocorrido: o motoqueiro fez a limpa no ponto de ônibus, roubou todo mundo. Ela correu e o cara a perseguiu. Prestes a ser assaltada, o motoqueiro se assusta, pensando, segundo a moça, que um carro da polícia se aproximava. A moto vai embora e a moça se salva.

Quando chego ao ponto, várias pessoas estão atordoadas; uma mãe de uma pessoa mais jovem também estava lá, aparentemente por ter ouvido alguma coisa de casa.

Trinta segundos mais cedo e eu veria toda a cena. Qual seria a reação do motoqueiro a me ver se aproximar?…

O outro caso foi mais punk. Aconteceu comigo em uma rua famosa pelos assaltos que lá ocorrem. O problema é que é uma rua ótima para correr, veja só. Ela é reta, mas ora é uma descida ora é uma subida, ótima para resistência.

(Como soa idiotas essas palavras.)

Lá estava eu na rua que dá acesso a ela. Um carro vem à milhão em minha direção. Dois jovens alterados dentro. Eles param ao meu lado e começam a rir e fazer perguntas bem toscas. (Toscas o suficiente para eu não escrever aqui). Ignoro os caras e eles ameaçam sair do carro e me bater. Decido voltar e rindo os caras aceleram e somem. Imaginando estar tudo limpo, eu dou meia volta e tento entrar na tal rua. (Como soa idiotas essas palavras.)

O carro estava lá no fim, parado. Na metade do caminho percebo. Os caras gritam das janelas e dão marcha a ré. Eu saio em disparada e vou embora.

Agora que escrevo percebo a possível consequência caso eu tentasse seguir por aquele caminho… Era nítido que eles estavam drogados, não era apenas idiotas andando a toda velocidade antes das seis da manhã em um dia de semana. Que tipo de coisa eles já teriam feito com outras pessoas? Ou foi apenas uma brincadeira bem tosca?

Depois da corrida de 10km, passei 2017 inteiro sem correr. Foi a pior decisão que já tomei, diga-se.

Voltei a correr faz dois meses. Meu pai me acompanha umas três vezes por semana, quando não trabalha de manhã. Lógico que hoje eu acordo mais tarde, graças aos incríveis benefícios de ser um estagiário — entre eles: entrar às 10 da manhã, ser obrigado a tirar xerox a cada vinte minutos, ser descontado no salário caso saia três minutos mais cedo e não completar as seis horas trabalhadas.

Corro porque sou péssimo em esportes coletivos e porque não tenho amigos suficientes para montar um time de futsal. É engraçado porque é verdade.

Mas quando me olho correndo — aliás, quando me olho fazendo qualquer coisa — me pergunto se aquilo não seria uma pequena distração, apenas para não me sentir vagamente… vazio.

Eu não sei o que isso quer dizer, mas analisando friamente qualquer coisa que façamos, é um tanto quanto estranho: assistir Tv; ver um filme; correr. Tente se ver fazendo isso. Ver um filme é basicamente observar pessoas que não existem passando por alguma experiência que tampouco existiu. Pior é quando Steve Spielberg tenta recriar o holocausto. Precisamos viver isso novamente, mesmo que seja por três horas e em preto e branco?

Precisamos de histórias de ficção para sentir uma emoção profunda?

Não estou dizendo que não gosto de filmes. Amo cinema e procuro justamente por essas emoções fajutas quando assisto um.

A mesma coisa ler livros; ir ao shopping não poderia fazer menos sentido. Outra: Engarrafamento. Uau! Nós escolhemos ficarmos horas no trânsito.

O capitalismo, o neoliberalismo, assistir à Rede Globo.

É o tipo de coisa que me vem à cabeça diariamente. Internalizo tudo e me sinto meio autista por analisar isso de forma tão literal.

Pouca coisa me alegra, na verdade. Correr me dá a sensação que busco um objetivo e, principalmente, é uma desculpa para expor meus joelhos, agora que os aceito como são!

Mas depois de tanto buscar e desejar um estágio percebo que ter escolhido o curso de Serviço Social foi um puta erro… Primeiro porque eu fui com a ideia arrogante que poderia “mudar uma realidade. Mesmo que uma pequena mudança, eu poderia fazer a diferença”. Depois que eu não tenho nada a ver com a profissão em si. Honestamente: eu não me importo com os problemas do mundo.

Depois de tanto analisar o capitalismo, os problemas do Estado, o funcionamento do nosso sistema, percebi que não será o Serviço Social que mudará algo.

Ok, não que eu não me importe com todos os problemas e blá-blá-blá. Mas talvez eu não quisesse mudar as pessoas e o mundo. Mas tocá-las de alguma forma. Sentir que meu trabalho acrescenta algo para elas.

Com a corrida eu aprendi muitas coisas. Primeiro que é um esporte democrático. Gordo, magro, velho, jovem. Todos podem correr. O pobre corre, o rico também. Por mais que há quem vá equipado com Nike da cabeça aos pés, você pode colocar um tênis e aquela camisa folgada de um vereador do PT das eleições passada, não importa. Você nem precisa ter duas pernas para correr.

Quando corri os 10km — o percurso era do Pacaembu até a Consolação e voltando —, algo me chamou muita atenção. Na ida, quando todos estavam em um ritmo confortável, eu só ouvia uma coisa: o atrito dos tênis com o asfalto. De todos os tênis, no mesmo ritmo, em harmonia.

Era algo parecido com aquelas marchas dos soldados norte-coreanos. Ninguém errava o passo seguinte.

Na volta, porém, o único barulho que ouvia eram as pessoas ofegantes, puxando o ar pela boca. Não havia mais nada ao redor, apenas todas aquelas pessoas de camiseta laranja tentando chegar ao final da prova.

O conceito de igualdade pela primeira vez fazia sentido para mim. Ali, e somente ali, não importava se você treinou com uma camisa escrita “Just Do It.” ou “Contra Burguês Voto 16”, você precisava dar um passo de cada vez para chegar à linha de chegada, você precisava puxar o ar para não cair esbaforido no chão!

As pessoas são mais parecidas do que pensam. Seus objetivos, às vezes, são os mesmos. As condições, seu contexto, porém, é completamente distinto. Sabemos disso, mas ignoramos.

Eu acordava às cinco e meia da manhã para correr e “corria” o risco de ser assaltado ou, quem sabe, morto. Alguém acordava às oito, nove da manhã e podia correr na mesma região onde seria realizada a prova, quem sabe no mesmo percurso. No dia da corrida, acordei às quatro da manhã e peguei ônibus e metrô. O mesmo sujeito atravessou a rua depois de tomar aquele café reforçado e foi correr 10km. A mesma prova, o mesmo objetivo. No mesmo dia.

Além da corrida, outras coisas unem brancos e negros, pobres e ricos. Mas a mais importante para mim é: história. Ou estória, que seja.

Todo mundo gosta de ouvir uma boa história. Diria de forma radical que mesmo no pior dos contextos e das situações se a pessoa tiver a chance de ouvir uma história ela vai ouvir. A única coisa que os negros desejam, que os brancos desejam e que os ricos e pobres desejam, é que essa história seja boa o suficiente.

Não importa se essa história lhe fará rir ou chorar, você quer ser tocado por ela. Ninguém quer passar impune por uma história. É nesse momento que queremos ser traídos, que nossas expectativas sejam subvertidas. Todos querem que valha a pena; os que ouvem e os que contam.

Por mais megalomaníaca que seja essa ideia, é o que eu quero. Contar uma história.

E é justamente a experiência sem sentido de ir ao cinema que me faz querer fazer isso mais do que “mudar uma realidade. Mesmo que uma pequena mudança, eu poderia fazer a diferença”.

Nunca antes houve uma época tão difícil de ter a atenção de uma pessoa. Celulares, internet, milhares de informações e séries a um toque. Fazer uma pessoa olhar nos seus olhos e se importar somente com suas palavras por dois minutos é difícil, imagina fazer essa mesma pessoa sentar por duas horas no escuro e escutar o que você tem a dizer em forma de filme.

Se os primeiros cinco minutos não forem bons, ela vai te deixar falando sozinho. Ela vai mudar para aquela série lacradora da Netflix, sim!

(E não há nada pior do que ser trocado por uma série lacradora da Netflix!)

Digamos que eu meio que escrevi alguma coisa “cinematográfica”… Inclusive estou dando os últimos reparos e já me movimentando para encontrar um jeito de levar essa história ao mundo.

Sim, esse post era apenas uma propaganda barata onde eu poderia me gabar do tempo que gastei escrevendo meu filme.

(Inclusive já criei meu perfil no IMDB. Coloquei meu filme em ‘pré-produção’. Para saber mais sobre mim, busque por George Lucas no imdb.com!)

Tenho certo gosto pelo “peculiar”. Correr às cinco da manhã é apenas a ponta do iceberg.

Mas como é difícil ser “peculiar” quando você enfrenta a insegurança interior e os padrões externos desse mundo asqueroso. Mas o pior que pode acontecer é meu roteiro ser produzido e o filme ser uma bosta. Isso acontece toda a vez que um filme do Michal Bay estreia.

Nós sobrevivemos ao Bay, então podemos sobreviver a “Limpeza” — esse é o título provisório do meu filme. Isso se eu não conseguir pensar em outro melhor. E nos últimos dois anos que venho escrevendo e rescrevendo, me apeguei ao nome!
Ainda há a hipótese de o meu roteiro ser realmente bom e as pessoas finalmente deixarem de assistir aos filmes do Bay por estarem ocupadas demais assistindo as inúmeras sequências que produzirei após ganhar milhões.

Hoje penso que a única coisa de interessante que tenho para contar para alguém é o esforço que fiz para escrever essa história de 131 páginas. Mas acontece que nunca tenho coragem de contar esse “feito” para ninguém, então a maior parte do tempo que me sinto frustrado com minha rotina e as pessoas a minha volta, eu simplesmente me imagino ganhando o Oscar por Limpeza ou pelo menos um Independent Spirit Award — porque meu filme será daqueles filmes independentes que pega indústria de assalto e vira um grande sucesso.

Ou talvez ele nunca saia do papel, mas, mesmo assim, terei uma chance de contar pessoalmente para alguém cena por cena — porque nessa altura eu já sei todas as sequências, claro — e meu trabalho como contador de história estará feito.

Escrever em formato de roteiro foi apenas uma forma que encontrei em continuar escrevendo e visualizar nitidamente minhas próprias criações. Uma forma de organizar meus pensamentos insanos entre cabeçalhos, descrições e diálogos.

Eu queria chamar esse texto de “Todo o dia eu acordo e é quinta-feira”, porque sempre que eu noto a passagem do tempo já é quinta-feira… Eu tirei isso de “Every day I wake up and it’s Sunday“, o primeiro verso da música do Travis, “Writing To Reach You”.

Eu gosto do sentido de repetição que tem essa frase, ainda que quando o Fran Healy cante seja em um sentido negativo… É isso que venho fazendo há dois anos: contando a mesma história para mim mesmo.

Maybe then tomorrow will be Monday…e eu terei alguém para dividir essa bobagem que não sai da minha cabeça. E terei motivos para correr e os filmes serão apenas filmes.

Droga. Meia-noite e quatro. Já é segunda-feira. Preciso dormir. Também não sei a imagem que colocarei para ilustrar o texto.

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