Contos Copeiros: #1 A Batalha de Nuremberg

  • Portugal 1 – 0 Holanda
  • Copa do Mundo de 2006 – Oitavas-de-final
  • Nuremberg – Domingo, 25 de Junho de 2006

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A Copa do Mundo de 2006 foi um mundial na Europa para os europeus. Das dezesseis seleções que estiveram nas oitavas-de-final, dez representavam a UEFA. E não é por acaso, quatro anos antes os europeus decepcionaram na primeira Copa em solo asiático. Os favoritos, como França e Itália, ficaram pelo caminho e deram espaço para zebras como Coreia do Sul — e mesmo a Turquia, que tem um pezinho da Ásia — ascenderem e chegarem às semifinais.

Claro que em 2002 tivemos os maiores escândalos recentes da arbitragem, pelo menos em um Mundial. A anfitriã Coreia do Sul foi explicitamente beneficiada em jogos contra Espanha e Itália. Vou ser mais escrachado: a FIFA roubou na cara dura e foi a responsável pela Coreia do Sul chegar entre as quatro melhores do torneio.

2006 serviu para os europeus lavarem a alma. Essa também foi a primeira Copa que acompanhei de perto — ainda que me lembre nitidamente das vinhetas da Rede Globo da Copa anterior, as pessoas comemorando o penta, enfim —; assisti alguns jogos, mesmo que pela metade, e vi a final que consagrou a Itália.

Uma das imagens mais antigas que tenho em mente é justamente da Copa de 2006. Nela, Deco e van Bronckhorst sentavam juntos na escadinha que dá acesso ao campo. Ambos haviam sido expulsos no jogo que é considerado até o hoje o mais violento da história das Copas.

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Portugal 1 – 0 Holanda, pelas oitavas de final, entrou para os anais dos grandes jogos e ficou conhecido como A Batalha de Nuremberg. Dezesseis cartões amarelos, quatro expulsões. Se faltou ética e espirito esportivo nessa partida, sobrou pé alto e diversão para quem acompanhou aquele histórico domingo, 25 de Junho de 2006. 

Família Scolari, Vol. 2

2004 foi um ano estranho para o futebol. Naquele ano, Once Caldas foi campeão da Copa Libertadores; na Europa, o Porto, de um tal José Mourinho, conquistava a Champions League e ao fim da temporada, a Grécia vencia a UEFA Euro.

Eram tempos tão obscuros que a velha máxima “Eu não acredito em bruxas, mas que elas existem, existem”, caía como uma luva para aquele momento.

A ressaca da Copa de 2002 ainda era sentida pelos europeus, pelo jeito. O título caiu no colo da Grécia, típica equipe que jogava por uma “bola vadia”: no mata-mata, a seleção venceu França e República Tcheca pela margem mínima e chegava à final.

Para Portugal, a derrota foi traumática. O time luso jogava em casa e tornou-se um favorito ao título após a chegada de Big Phil, que tinha como credencial o penta campeonato vencido pelo Brasil dois anos antes.

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No caminho para o Estádio da Luz, Portugal despachou Rússia (2-0) e Espanha (1-0) na fase de grupos, bateu a poderosa Inglaterra de David Beckham nas quartas-de-final (2-2; 6-5 nos pênaltis) e, coincidentemente, deixava a Holanda do técnico Dick Advocaat fora da finalíssima (2-1).

Mas o futebol é sádico. Na estreia dos anfitriões na Eurocopa, Portugal enfrentava justamente a Grécia, que veio munida com baldes de água fria (1-2). Seria aquele jogo apenas uma predição do que ocorreria algumas semanas depois?

Mas o ano era 2004, naquela época tudo poderia acontecer — e aconteceu. Os portugueses secaram as lágrimas e chegaram à Alemanha como aspirantes à surpresa. E assim o foi.

Naquele verão de 2006

Portugal passou pela fase de grupos sem nenhum arranhão. Dividindo o grupo D com México (2-1), Irã (2-0) e a ex-colônia Angola (1-0), o time chegou ao mata-mata com cem por cento de aproveitamento.

No grupo ao lado, a Holanda de Marco van Basten não teve o que reclamar. Passou em segundo em um grupo com Servia e Montenegro (1-0) — veja o incrível cenário geopolítico de doze anos atrás!—, Costa do Marfim (2-1) e a favorita Argentina (0-0).

Essa Holanda, aliás, pouco se difere da atual — que está fora da Copa na Rússia. Era uma equipe com muito potencial e nomes interessantíssimos que surgiam no futebol local. Se hoje são nomes reconhecidos no mundo todo — e inclusive alguns já se aposentaram —, naquele ano Wesley Sneijder era apenas um meia promissor que vinha da base do Ajax, Rafael van der Vaart já chamava atenção no Hamburger e Dirk Kuyt era artilheiro no Feyenoord. Fora van der Sar, que brilhava com a camisa do Manchester United, van Bronckhorst, uma das estrelas do Barcelona, e Ruud van Nistelrooy, que à época era um dos melhores atacantes do mundo jogando na Inglaterra pelo United, o time contava ainda com van Persie, ídolo do Arsenal e um importante Arjen Robben para o meio-campo do Chelsea.

Mas o que seria uma solução, para mim, tornou-se o grande problema. Marco Van Basten foi indiscutivelmente um dos maiores jogadores da história do futebol. Como treinador, porém, o cara só tinha uma boa pinta — e ainda deu uma arregada para Big Phil.

A Batalha

Como um filme de Milos Forman, A Batalha de Nuremberg envelheceu bem para quem aprecia o bom futebol. Apesar dos vinte minutos finais, olhando atentamente os detalhes daquele jogo, é possível notar duas coisas importantíssimas.

Primeiro: Felipão era, sim, um dos maiores — se não o maior — treinador daquela época. Taticamente, seu Portugal era irretocável. O 4-2-3-1 dinâmico montado para aquela partida deixa muito “especialista” dos dias de hoje no chinelo.

Com Ricardo seguro no gol e firme quando acionado, a defesa tinha em seu núcleo Fernando Meira e Ricardo Carvalho. Contra a Holanda ambos foram sólidos. Carvalho teve até um duplo trabalho: ele era responsável por cobrir as subidas ao ataque de Miguel e o fez com louvor. Nas laterais, o já citado Miguel, pela direita, surgia como um apoio ao ataque. Apesar de efetivamente não criar grandes chances pelas alas, ele fechava bem seu lado do campo ao atuar quase como um ala quando os lusos não detinham a bola. Nuno Valente, por vezes, me confundia. Mais contido pela esquerda, o jogador se posicionava como um volante de contenção e ora ou outra parecia um zagueiro torto na lateral do campo. Defensivamente, porém, Nuno foi tão bem quanto os demais defensores.

A ‘timidez’ de Nuno foi essencial para o dinamismo do meio-campo. E que meio-campo. Costinha era o menos genial; volantão, jogava rente à defesa e cobria a intermediária de ponta a ponta. Algo me incomodou, porém: Casualmente, Costinha sempre aparecia correndo atrás dos meias holandeses que se aventurava por aquelas bandas. Talvez a única falha de Felipão naquele domingo — falha essa que possibilitou o drama que viria a seguir.

FIFA 2006 World Cup - Round of 16 - Portugal vs Netherlands

Nuno Valente, ao subir pouco ao ataque, dava liberdade principalmente para os meias de ligação: Maniche e Deco. O primeiro fazia dupla com Costinha, protegendo a defesa e iniciando o jogo; mas era comum vê-lo na entrada da área holandesa, isso quando ele não invadia com bola e tudo a área de van der Sar. Maniche fazia esse box-to-box sem temer dar espaços para o adversário porque Deco também voltava para marcar.

Deco, esse, em estado de graça naquela temporada. Marcava, iniciava jogadas e armava. No seu auge, Deco foi um Xavi, mas mais dinâmico. Se Xavi fazia a bola correr, Deco corria, entregava a bola para o ataque e ainda chegava como fator surpresa.

Maniche e Deco eram os típicos jogadores operários, polivalentes, que faziam o trabalho sujo com dignidade, destreza e habilidade. Foram essenciais nesse jogo principalmente porque Figo estava em um dia pouco inspirado e Cristiano Ronaldo não conseguiu jogar mais do que trinta minutos devido a uma lesão. No tempo que CR7 —CR17 naquela Copa — esteve em campo, porém, trocava de lado com LF7 — Luiz Figo, dono legítimo da camisa 7. A troca serviria para confundir os defensores da Holanda, mas pouco deu resultado naquela noite.

Por último, lá na frente, ficava Pauleta. Um típico camisa 9. De pouca movimentação e sempre fixo entre os zagueiros adversários, Pauleta teve poucas chances; atuou mais como um pivô do que um finalizador e isso fez dele um jogador chave para a classificação portuguesa.

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O segundo e importante detalhe que notei ao rever o jogo doze anos depois: Van Basten, pelo menos nesse jogo, foi terrível em suas escolhas. A Holanda esteve à deriva quando mais precisava de um pulso firme. Pulso firme no sentido de pressionar e desconstruir o forte português.

 

E depois de todos esses anos posso dizer sem medo de polêmica: A Holanda foi a principal responsável pela Batalha de Nuremberg. Já diria os Stereophonics: basta um fósforo para queimar mil árvores.

 ÀS ARMAS!, ÀS ARMAS!

O cenário desse jogo não foi mero acaso ou circunstancial. Foi construído desde o primeiro minuto de bola rolando.

Aos dois minutos, van Bommel já tinha sido fichado com um cartão amarelo e Boulahrouz seguiu seu exemplo cinco minutos depois. Nessa, ele ainda levou um pedaço de Cristiano Ronaldo como prêmio: meia-hora depois o futuro melhor do mundo era substituído por Simão Sabrosa com dores na coxa.

O árbitro russo Valentin Ivanov deixou passar “gentilezas” vindas de Phillip Cocu — que surpreendentemente saiu de campo sem nenhuma advertência, ainda que tenha batido como poucos —, mas não deixou barato a “sutileza” de Maniche e Costinha, que fecharam a conta dos amarelos no primeiro tempo.

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Portugal foi mais time na primeira metade; foi incisivo no ataque e exigiu que van der Sar praticasse pelo menos um milagre antes do arbitro apitar para o intervalo. A Holanda com seu tradicional 4-3-3 dependeu o jogo inteiro da individualidade de Robben e van Persie pelas pontas, que criaram chances em finalizações que nem sempre levaram perigo a Ricardo. Kuyt enfiado pelo meio movimentou-se o quanto pôde, mas a bola não chegava e a defesa lusa não dava espaço.

Aos vinte e três minutos o gol. Pauleta fez o pivô e rolou para Maniche fora da área que contornou a defesa e abriu espaço para o chute. Sem chances para van der Sar.

A estratégia de Van Basten ficou mais clara uma vez que a Holanda encontrava-se em desvantagem. O pé alto, entradas por trás e divididas fortes passaram a ser frequente no lado holandês. E Portugal, claro, valorizava o choque. Figo peitou van Bommel e van Bronckhorst; Sneijder provou da lei da gravidade depois que levou um empurrão já com o jogo paralisado e o excesso de “carinho” de Costinha lhe custou o cartão vermelho.

O primeiro tempo acabou com tudo entreaberto. A vantagem da Laranja Mecânica era apenas numérica; no placar e com a bola no pé o time devia.

Felipão queimou a segunda substituição fazendo entrar Petit no lugar de Pauleta. O volante entrou no clima do jogo e foi recebido por Ivanov com um cartãozinho amarelo básico e um susto: Cocu meteu a bola no travessão ao finalizar uma boa jogada da Holanda.

A Holanda passou a se movimentar mais, muito por conta de Sneijder, que puxava o time para frente, obrigando Deco, Maniche e Petit formarem um paredão na frente da defesa lusa. Isolado na lá frente, Figo também melhorou: contemporizava, prendia a bola no ataque e gastava o tempo que ainda faltava.

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Mas, então, veio o último terço do jogo. Aí virou pelada. Se a partida, apesar dos pesares, ainda nos entregava bons momentos de futebol e emoção, os fãs de WWE devem ter vibrado e muito na parte final.

Van Basten finalmente decidiu mexer no time — e teria sido melhor que não o fizesse. No lugar de Mathijsen entrou um inapto van der Vaart; trocou o volante van Bommel pelo zagueiro Heitinga; Hesselink substituiu Cocu enquanto van Nistelrooy permaneceu no banco.

Nenhuma substituição surtiu efeito. E como um castigo pelas péssimas alterações, Boulahrouz foi expulso depois do “afago” em Luiz Figo.

O jeito foi apelar. Heitinga não fez uso do fair play e optou por não devolver a bola para Portugal — um escândalo! —; Deco resolveu com bons modos a questão: carrinho por trás do zagueirão. Os jogadores nos bancos ficaram indignados e invadiram a lateral do campo.

Empurrão pra cá, empurrão pra lá, só Deco levou amarelo, mas quem botou pra quebrar foi Big Phil ao berrar para van Basten que ele era o responsável por aquilo. O holandês ficou pianinho, mas sorriu internamente depois que Deco levou o segundo cartão amarelo e foi expulso.

Apressado mesmo estava van Bronckhorst para voltar para a Holanda e aproveitar as férias: já nos acréscimos tomou o vermelho e embarcou para Amsterdam.

O jogo chegou ao fim sendo criticado por Joseph Blatter, o corrupto que liderava a FIFA à época. Falar de jogo sujo sendo ele o maior ladrão desde João Havelange soa um pouco cínico, por assim dizer.

A Holanda pouco faria na Eurocopa seguinte, em 2008, mas seria finalista na Copa da África do Sul, em 2010, sendo derrotada pela Espanha. Em 2012, a Laranja Mecânica faria sua pior participação na Euro ao perder os três jogos e ser eliminado ainda na fase de grupos. No Mundial seguinte, perderia para a Argentina na semifinal em outro jogo dramático, ficando com o terceiro lugar ao golear o Brasil.

Oscilando entre grandes participações e grandes vexames, a seleção holandesa vive seu pior momento: ficou de fora da Euro 2016, na França, e não se classificou para o mundial deste ano, na Rússia.

Em minha opinião, parte desse fracasso vem da herança maldita que essas últimas gerações receberam da equipe de 1974. O Carrossel Holandês vive no imaginário popular do país e parece existir uma necessidade para que a seleção volte a assustar o mundo do futebol com tamanha soberba técnica. O 4-3-3 holandês não funciona mais e o Futebol Total talvez não tenha mais espaço no esporte. Para isso, talvez, necessite de um treinador com colhões e jogadores que acreditem cegamente no método. Ainda assim faltaria a genialidade de um Johan Cruyff…

O 4-3-3 holandês está para a Laranja como o 4-2-2 britânico está para a Inglaterra. Ambos os sistemas vivem mais pelo que simbolizou décadas atrás do que os resultados que obtém atualmente.

Soccer - 2006 FIFA World Cup Germany - Second Round - Portugal v Holland - Franken-Stadion

Portugal, por outro lado, venceria a Inglaterra nas quartas-de-final daquela Copa, mas cairia para a França pelo placar mínimo na semi. O time terminou a Copa de 2006 em quarto lugar.

Felipão continuou na seleção lusa até a Euro seguinte, alcançando as quartas-de-final. Na Copa seguinte, pouco inspirados, os portugueses chegaram as oitavas, caindo para a futura campeã Espanha — derrota repetida na semifinal da Euro 2012. No Brasil, em 2014, o time venceria apenas um jogo e voltava para casa ainda na fase de grupos.

Só em 2016, com uma nova geração liderada por CR7, o time chegaria ao topo do velho continente ao vencer a anfitriã França na Eurocopa. Não faltaram críticas, claro. A velha retórica de que o “anti-futebol” venceu foi o principal argumento para deslegitimar o primeiro título da Terra de Camões.

Honestamente? Faz anos que não assisto futebol com a dedicação que tinha quando mais novo. Gosto da história que esse esporte pode escrever e da emoção que ele me causa. Mas nunca fui muito fã do tiki-taka. É tedioso. Nunca torci pelas grandes equipes, sempre apostei nos azarões, nos desacreditados.

Em 2016 Portugal não demonstrou um grande futebol; mas isso diminui sua vitória? Há quem lembre-se mais dos perdedores — como a própria Holanda de 74, a Hungria de 54, o Brasil de 82 — justamente por jogarem o fino da bola. Eles mereciam por direito levarem o título por deslumbrar a multidão?

Não. O jogo é jogado, na retranca ou no contra-ataque, não importa; importa quem faz mais gols, essa é a regra básica do futebol. Talvez seja por esse detalhe que continuamos em busca dessa emoção.

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2 comentários em “Contos Copeiros: #1 A Batalha de Nuremberg

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